terça-feira, 24 de setembro de 2013

LEITOR: CHAMADO A PROCLAMAR AS MARAVILHAS DE DEUS

O mês de setembro (mês da Bíblia? Da Palavra de Deus? Ou da Entrada da Bíblia?) realmente está me comovendo. Quando chego nas igrejas por aí e vejo uma bela coreografia para no dizer do “comentarista” – “Acolher a Palavra de Deus” chego a sentir um frio na espinha. Geralmente fazemos um show cinematográfico que enche os olhos, mas não instrui o espírito.
 
Quando entramos com a Palavra, nada de extraordinário acontece, agora quando ELA (A PALAVRA DE DEUS) é proclamada, é Deus quem nos fala, se servindo do ministério do leitor.

O Leitor desenvolve uma ação ritual, ele se levanta do seu lugar e se dirige a Mesa da Palavra lá proclama o texto escolhido para aquela celebração. Embora seja ampla a gama de textos Bíblicos que fundamentam este ministério, no Evangelho de Lucas (4,16-20) encontramos uma bela inspiração para este ministério:

 “E veio à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado, e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: O Espírito  do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”. Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele”.


Vejam como é bela a passagem, esta cena descreve com muita proximidade aquilo que devemos realizar em nossas Liturgias. Cada gesto tem um sentido profundo e ajudam na compreensão do todo que celebramos.

Sobre o leitor, que pode ser instituído ou reconhecido, a Instrução Geral ao Missal Romano diz no numero 99: O leitor é instituído para proferir as leituras da sagrada Escritura, exceto o Evangelho. Pode igualmente propor as intenções para a oração universal, e, faltando o salmista, proferir o salmo entre as leituras.
 
E prossegue no numero 101, na falta de leitor instituído, sejam delegados outros leigos, realmente capazes de exercerem esta função e cuidadosamente preparados para proferir as leituras da Sagrada Escritura, para que os fiéis, ao ouvirem as leituras divinas, concebam no coração um suave e vivo afeto pela Sagrada Escritura.

Leitor instituído: Geralmente os candidatos ao diaconato (transitório ou permanente) embora seja permitido instituir outros leigos (do sexo masculino) que recebem este ministério em uma cerimônia presidida pelo bispo e o recebem de forma definitiva.

Leitor reconhecido: Aqueles outros leigos que proclamam a palavra na ausência do leitor instituído. Em alguns lugares são designado por um período de tempo e recebem uma formação como é comum nestas terras aos Ministros Extraordinários da Distribuição da Sagrada Comunhão.

Atenção: Quando estiver presente o leitor instituído, ele deve proclamar ao menos uma das partes da Liturgia da Palavra.


Vejam como é importante esse ministério. O serviço que o leitor presta a comunidade é além de despertar o interesse dos demais pelos textos sagrados emprestar sua própria voz a Deus para que fale com a comunidade reunida. A pessoa consciente de sua condição ministerial, toma isso para si de tal forma que se entrega a esse serviço como um verdadeiro Vocacionado à proclamação da Palavra.


Partindo da observação e da minha própria experiência, organizei um breve método para que os leitores possam se preparar para proclamar as leituras sagradas.

PREPARAÇÃO PARA PROCLAMAR OS TEXTOS SAGRADOS NAS CELEBRAÇÕES LITÚRGICAS:

1º Passo: Encontrar os textos Bíblicos que irão ser lidos por você durantes a celebração. Realizar a leitura orante destes textos.

LECTIO DIVINA – LEITURA ORANTE DA PALAVRA DE DEUS

A leitura orante da Bíblia, ou LECTIO DIVINA, é um alimento necessário para a nossa vida espiritual. A partir desta oração, conscientes do plano de Deus e sua vontade, podemos produzir os frutos espirituais em nossa vida.

A LECTIO DIVINA é deixar-se envolver pelo plano amoroso e libertador de Deus. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia, em seu período de aridez espiritual, que quando os livros espirituais não lhe diziam mais nada, ela buscava no Evangelho o alimento da sua alma.

Como fazer a LECTIO DIVINA?
A LECTIO DIVINA tradicionalmente é uma oração individual, porém, podemos fazê-la em grupos. O importante é rezar com a Palavra de Deus lembrando o que dizem os bispos católicos no Concílio Vaticano II, relembrando a mais antiga tradição católica, que conhecer a Sagrada Escritura é conhecer o próprio Cristo. Os monges diziam que a LECTIO DIVINA é a escada espiritual dos monges, mas é também a de todo cristão!
Quais os passos da LECTIO DIVINA?
1) Oração inicial: Comece invocando o Espírito Santo, que nos faz conhecer e querer fazer a vontade de Deus. Reze, por exemplo, com a seguinte oração:
«Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor. - Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e tudo será criado; e renovareis a face da terra. Ó Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com as luzes do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas e gozemos sempre da sua consolação. Por Cristo Senhor nosso. Amém.»
2) Leitura da Palavra de Deus: Leia, com calma e atenção, um pequeno trecho da Bíblia (aconselhamos que nas primeiras vezes utilize-se os textos dos Evangelhos, por serem mais familiares a todos). Se for preciso, leia o texto quantas vezes forem necessárias.
Procure identificar as coisas importantes deste trecho da Bíblia: o ambiente, os personagens, os diálogos, as imagens usadas, as ações. Você conhece algum outro trecho que seja parecido com este que leu? É importante que você identifique tudo isto com calma e atenção, como se estivesse vendo a cena. É um momento para conhecer e reconhecer a Boa Notícia que este trecho nos traz!
3) Meditar a Palavra de Deus: É o momento de descobrir os valores e as mensagens espirituais da Palavra de Deus: é hora de saborear a Palavra de Deus e não apenas estudá-la. Você, diante de Deus, deve confrontar este trecho com a sua vida. Feche os olhos, isto pode ajudar. É preciso concentrar-se!
4) Rezar a Palavra de Deus: Toda boa meditação desemboca naturalmente na oração. É o momento de responder a Deus após havê-lo escutado. Esta oração é um momento muito pessoal que diz respeito apenas à pessoa e Deus. É um diálogo pessoal! Não se preocupe em preparar palavras, fale o que vai no coração depois da meditação: se for louvor, louve; se for pedido de perdão, peça perdão; se for necessidade de maior clareza, peça a luz divina; se for cansaço e aridez, peça os dons da fé e esperança. Enfim, os momentos anteriores, se feitos com atenção e vontade, determinarão esta oração da qual nasce o compromisso de estar com Deus e fazer a sua vontade.
5) Contemplar a Palavra: Desta etapa a pessoa não é dona. É um momento que pertence a Deus e sua presença misteriosa, sim, mas sempre presença. É um momento no qual se permanece em silêncio diante de Deus. Se ele o conduzirá à contemplação, louvado seja Deus! Se ele lhe dará apenas a tranqüilidade de uns momentos de paz e silêncio, louvado seja Deus! Se para você será um momento de esforço para ficar na presença de Deus, louvado seja Deus!
6) Conservar a Palavra de Deus na vida: Leve a Palavra de Deus e o fruto desta oração para a sua vida. Produza os frutos da Palavra de Deus semeada no seu coração, frutos como: paz, sorriso, decisão, caridade, bondade, etc... Não se preocupe se alguma coisa não for bem, um dos frutos da Palavra de Deus é a noção do erro e a conversão pela sua misericórdia. O importante é que a semente da Palavra de Deus produza frutos, se 30, 60 ou 100 por um... o importante é que produza, e que o Povo de Deus possa ser alimentado pelos testemunhos de fé, esperança e amor na vivência de um cristianismo sincero.
Termine com a oração do Pai Nosso, consciente de querer viver a mensagem do Reino de Deus e fazer a sua vontade.

2º Passo: Leia a leitura em voz alta como se estivesse na Igreja, e caso tenha dificuldade com alguma palavra, não tenha medo de treinar (procure o significado dela em um dicionário). Por ultimo tenha atenção a pontuação, as frases interrogativas precisam ter este tom, da mesma forma as interrogativas e assim por diante.

3º Passo: Ao chegar a Igreja procure conferir no Lecionário a leitura que irá fazer, assim você irá familiarizar com a posição das palavras.


Lucas Francisco Neto

domingo, 22 de setembro de 2013

O Mês da Bíblia e a Liturgia da Palavra




Dizem que setembro é o mês da bíblia. Ocorre que em nossa liturgia nós não usamos a bíblia. O Concilio Vaticano II deu uma grande importância a Palavra de Deus, mas mesmo assim, nada mudou quanto aos Livros Litúrgicos.

Em nossas liturgias não usamos a Bíblia, mas sim trechos de seus livros que estão especialmente distribuídos para cada ocasião em coletâneas que chamamos de Lecionários. Os lecionários são livros funcionais, justamente por isso, não é preciso muito esforço ou conhecimento para saber qual texto é indicado para qual dia.


Usamos este livro (lecionário) o ano inteiro, mas quando chega setembro, surge um novo "Rito" (lastimável). Começa a tal de entrada da Bíblia.

Em alguns lugares entra-se com a bíblia acompanhada de uma dança ou outro gesto e depois ela é colocada em uma mesa decorada. Em outros lugares - pessoas que entendem que não usamos a bíblia em nossas celebrações - entram com o lecionário.

Sobre isso: O número 120 "d" da Instrução Geral ao Missal Romano ao falar sobre a procissão de entrada diz que o leitor, pode conduzir um pouco elevado o Evangeliário, não, porém, o lecionário. Vamos entender isso, o Evangeliário (um livro mais belo que contem os Evangelhos dos domingos, solenidades e algumas festas) é venerado de maneira especial, já o lecionário esse é apenas funcional e não recebe especial veneração.

Na missa presidida pelo bispo, ao final da proclamação
do Evangelho ele abençoa o povo com o Evangeliário.
Na foto o Papa Francisco em uma de suas missas.
O que deveríamos fazer então para destacar a Palavra de Deus no mês de Setembro – não que seja o único tempo de se destacar a Palavra de Deus – devemos fazer o que se deve fazer em todos os meses e em todas as celebrações litúrgicas, proclamar bem a Palavra, como acontecimento de salvação que é.
A mesma Instrução Geral Sobre o Missal Romano diz no número 55: A parte principal da Liturgia da Palavra é constituída pelas leituras da Sagrada Escritura e pelos cantos que ocorrem entre elas, sendo desenvolvida e concluída pela homilia, a profissão de fé e a oração universal ou dos fiéis. Nas leituras explanadas pela homilia Deus fala ao seu povo, revela o mistério da redenção e da salvação, e oferece alimento espiritual; e o próprio Cristo, por sua palavra, se acha presente no meio dos fiéis. Pelo silêncio e pelos cantos o povo se apropria dessa Palavra de Deus e a ela adere pela profissão de fé; alimentado por essa palavra, reza na oração universal pelas necessidades de toda a Igreja e pela salvação do mundo inteiro.

Pois bem, então tenhamos a máxima diligencia ao realizar a Liturgia da Palavra, ao escolher suas partes e ao escolher seus ministros. Para leitor é preciso ter vocação e aptidão. Uma criança pode ser graciosa e muito meiga e mesmo assim não estar pronta para proclamar a palavra e a participação da assembleia não pode ser prejudicada por seu mais puro desejo de ler em público. Um adulto mal preparado também não deve ser recebido como leitor, para ler na liturgia é preciso antes ter rezado aqueles textos e estar imbuído da mensagem que carregam.

Estes leitores devem estar de tal forma imbuídos do mistério que é anunciado através de sua voz que percebam que Deus se serve de seu ministério para falar a comunidade reunida e que por isso devem desempenhar esse oficio com toda piedade, isso inclusive se refere ao modo se vestir, falar, portar-se, até a maneira como se está de pé influencia. A Liturgia da Palavra deve toda ela ser proclamada da Mesa da Palavra (sobre a qual vale a pena fazer outra postagem) e só para exemplificar sua importância, se uma criança ou pessoa de baixa estatura for ler, não é a Mesa ou o Livro que deve ser abaixado, mas a pessoa que deve subir em alguma estrutura.

Não precisamos de penduricalhos (como coreografias e etc), precisamos celebrar bem, pois não existe catequese melhor que uma liturgia bem celebrada. Por ultimo deixemos uma dica quanto ao silêncio: A Liturgia da Palavra deve ser celebrada de tal modo que favoreça a meditação; por isso deve ser de todo evitada qualquer pressa que impeça o recolhimento. Integram-na também breves momentos de silêncio, de acordo com a assembleia reunida, pelos quais, sob a ação do Espírito Santo, se acolhe no coração a Palavra de Deus e se prepara a resposta pela oração. Convém que tais momentos de silêncio sejam observados, por exemplo, antes de se iniciar a própria Liturgia da Palavra, após a primeira e a segunda leitura, como também após o término da homilia (Instrução Geral ao Missal Romano – 56).




Lucas Francisco Neto

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Jejum e abstinência quaresmal


Precisamos conhecer bem a nossa Igreja. Estamos na quaresma e neste período a Igreja nos convida a penitência. E estão prescritos o Jejum e a abstinência.

Jejum significa, comer com frugalidade, abrir mão de uma refeição completa diária. Podem então fazer uma refeição completa e as duas intermediárias. Ou seja, abri-se mão do almoço ou do jantar. Já a Abstinência é não comer carne de animais de sangue quente (carneiro, boi, frango...). Jejum se faz na quarta de cinzas e na sexta feira Santa, enquanto a abstinência em todas as sextas feiras da quaresma.

Muitos padres de maneira equivocada têm dito que, se pode fazer abstinência de outras coisas (da própria língua, de refrigerante, televisão, doces...), pois bem, não é verdade, abstinência para a quaresma é da maneira descrita acima. No entanto, afastar-se destas ou de ainda outras praticas pode ser um bom exercício penitencial. Mas, não substitui aquilo que a Igreja prescreve.

Outra questão é que nem todos são obrigados a tais praticas. São dispensados da abstinência os menores de 14 anos, os idosos, as mulheres grávidas e os pobres que recebem essas carnes como esmola. São dispensados do Jejum os menores de 18 anos, os idosos, os doentes e as mulheres grávidas.

Outro fato importante, é que não se faz jejum nem abstinência nas solenidades, portanto nesta próxima sexta feira, Solenidade da Cátedra de Pedro, estamos dispensados da abstinência (como bem lembrou o padre Renato Paganini em sua pagina no facebook).

Lucas Neto

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Chegamos a Quaresma


Chegamos então a mais um período quaresmal. Antes de iniciar a serie que eu havia prometido sobre os sacramentos, acho importante desenvolvermos algumas orientações básicas sobre este tempo que começamos a vivenciar. Recorri a alguma orientações escritas pelo padre Renato Paganini, um sacerdote da Arquidiocese de Vitória que se destaca pelo zelo com que vive e ajuda o povo a viver a sagrada litúrgica, atualmente o mesmo acumula as funções de assessor da Pastoral Litúrgica Arquidiocesana e de chefe do Cerimonial do Arcebispado de Vitória/ES. Com alguns acréscimos meus, seguem as orientações:

- Estamos vivenciando o Ano C, o evangelista que meditamos é Lucas, o foco deste período quaresma será o penitencial. No primeiro domingo “Jesus no deserto, guiado pelo Espírito” (Fidelidade à Palavra). No segundo domingo “O rosto de Jesus muda de aparência” (Deus próximo de nós). No terceiro domingo “Se não vos converterdes, ireis morrer” (Deus não nos salva sem nós). No quarto domingo “Parábola do Pai misericordioso” (A espera pelo filho arrependido). No quinto domingo “Vai e não peques mais” (Quem não tem pecado, atire a primeira pedra).

- Por causa do caráter batismal desse tempo, podem ser feitos, de acordo com a inspiração das leituras, o rito de persignação, sem a renovação das promessas batismais (próprio para o Tempo Pascal) ou a aspersão no lugar do Ato Penitencial (Momento de Perdão).

- O Ato Penitencial pode ser desenvolvido com mais intensidade, sem, contudo, enfatizar o pecado, mas o Pai que acolhe e perdoa através de seu Filho (não é adequado ficar listando pecados).

- Neste período não cantamos o hino do Gloria, exceto em algumas solenidades.

- Alguns sinais podem receber destaque, como por exemplo, a cruz que poderá ser sempre levada em procissão, receber algum tipo de ornamentação destacando-a e, ainda, mencionada, olhada, tocada, incensada no começo da celebração.

- O gesto de ajoelhar-se também encontrado espaço adequado nesse tempo, principalmente durante o Ato Penitencial.

- Todo cuidado para a proclamação das leituras. Um das características desse tempo é a escuta mais atenta da Palavra.

- Não se deve usar nunca “Aleluia” nesse tempo para diferenciá-lo do Tempo Pascal, onde se canta o “Aleluia” como sinal de festividade.

- Não seria interessante reservar o acendimento solene da vela para o tempo Pascal, de modo a valorizar o Círio Pascal? Assim, ele não será visto como uma vela comum, mas um sinal com significado superior a uma simples vela.

- Moderação no uso dos instrumentos musicais, dando sobriedade a execução dos hinos, de modo que na Páscoa possa se sentir mais forte a vibração dos cantos.

- Nas celebrações da palavra o abraço da paz pode ser dado, algumas vezes, depois do Ato Penitencial, aspersão ou persignação como abraço de reconciliação.

-Neste período a Igreja no Brasil vivencia a Campanha da Fraternidade, um auxilio em nosso itinerário de conversão, que de forma alguma deve-se impor a liturgia e tornar-se maior que o ritmo do tempo Quaresma.

- O hino da campanha da fraternidade pode ser usado em um momento adequado da celebração. Não precisa ser executado sempre, mas oportunamente.

- Em alguns momentos é importante valorizar o cartaz da CF ou algum sinal que lembre o tema. Não realizar momentos como apêndice, mas no contexto da celebração, para que não pareça algo a parte do que se está celebrando.

- Nesse período não é permitido ornamentar com flores, exceto no IV Domingo, quando também se usa paramentos de cor rosa.
- Incentivar a busca pelo sacramento da reconciliação, peregrinações, o jejum, a abstinência e práticas de caridade.

- Preparar, de acordo com a agenda paroquial, as celebrações penitenciais.

Lucas Francisco Neto
Comissão Arquidiocesana de Liturgia
Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo

Tendo como base, material disponibilizado por: Padre Renato de Jesus Paganini (Assessor da Pastoral Litúrgica da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo e Chefe do Cerimonial do Arcebispado)


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Queremos tocar a hóstia.




Nós agentes da pastoral litúrgica precisamos intervir imediatamente no processo de construção da fé. As pessoas não podem pensar que são católicas, elas precisam ser. Para tanto é necessário conhecer a fé. Não se abraça uma fé que não se conhece.


Precisamos promover uma profunda catequese sobre a Eucaristia. Surgiu em nosso meio um verdadeiro "fetiche" por tocar a hóstia consagrada (geralmente colocada em um belo Ostensório), nada contra a prática da adoração, mas o que vale mais? Sacrifício ou vítima?


Hóstia significa vítima, o que faz com que a vítima signifique alguma coisa é o sacrifício para o qual ela está destinada. Se podemos tomar parte do sacrifício perfeito de Jesus Cristo, realizado (perenemente) no Sacramento dos Sacramentos, então porque depois temos que ficar em busca de tocar a hóstia como se fosse algo mágico?


O milagre que esperamos vai acontecer quando entendermos a vontade de Deus. Quando aprendermos a conformar a nossa vida a vida de Jesus Cristo. Garanto seremos melhores Católicos se compreendermos a Igreja.


A adoração Eucarística tem o seu lugar e a sua importância. Mas definitivamente não é a a Santa Missa que significa muito mais que qualquer devoção, pois nela (como sacramento) se realiza (não se representa) em sua totalidade o Mistério de Cristo.


Lucas Neto
(Publicado originalmente no facebook)

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O que a Liturgia Celebra?


Seria ótimo poder ouvir a resposta de cada um. Evidentemente esta não é a mídia adequada para isso. Então vamos às propostas. Com o presente texto, eu estou iniciando uma serie de textos que pretende apresentar as noções básicas necessárias a um agente de Pastoral envolvido com a Liturgia.

Para celebrar bem é preciso celebrar com consciência, é isso que afirma a Constituição Sacrossanctum Concilium, documento tão querido de quem costuma estudar liturgia nos dias de hoje, até em detrimento de outras fontes. É então que surge meu questionamento: será que sabemos o que estamos celebrando?
Quando vamos à missa, por exemplo, é a alma dos falecidos que está sendo celebrada? Ou o anjo da guarda? No sacramento do batismo, é a alegria dos pais por terem tido um filho? Ou a nossa devoção a Virgem Maria ou a outro Santo? Todas essas coisas fazem parte da nossa vida, mas não é este o ponto central de nossas liturgias.

A Liturgia da Igreja celebra o Mistério Pascal de Cristo: o conjunto de acontecimentos pelos quais se consumou a salvação de todos os homens e se inaugurou o tempo novo da Redenção. É pela realização destas coisas que toda os homens fazem parte da vida divina. É pelo Batismo que somos incorporados neste sacrifício inestimável em valor, que Jesus oferece a Deus Pai em nosso favor.

É isso que a Liturgia da igreja faz, celebra, torna presente o sacrifício de Cristo ao Pai, por nós. Assim, nossa liturgia é dirigida ao Pai e realizada por Cristo na ação do Espírito Santo. É da vivencia litúrgica que brotam todas as demais exigências da vida cristã. Afinal, foi em virtude do Mistério Pascal (da nossa Salvação) que Jesus, curou os doentes, caminhou junto dos excluídos, multiplicou o pão. Se você é católico, pratica obras de caridade e milita em defesa dos necessitados e não conseguiu entender que isso deve brotar da celebração do Mistério Pascal, existe alguma falha na sua participação consciente.


Lucas Francisco Neto

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Relatório da Observação Participante Festa do Batismo do Senhor Igreja Beato José de Anchieta – Pateo do Collegio

Tendo em vista a proposta do Curso de Atualização em Liturgia, promovido pelo Centro de Liturgia “Dom Clement Snard” em parceria com a “Unisal”, inspirado pela maneira do centro de fazer ciência litúrgica e pela provocação feita pelo Pe. Danilo, que trabalha com minha turma o tema Mistério Pascal, foi sugerido que visitássemos uma Igreja de nossa preferência e que ali aplicássemos o método da observação participante em relação a alguma parte da Celebração “algum Rito”, relacionando a forma como fora realizado com o mistério que era celebrado.


Escolhi visitar novamente a Igrejinha do Beato Anchieta, localizada no Pátio do Colégio, local da fundação da cidade de São Paulo, pelo referido beato. O padroeiro já me é caro, uma vez que, diz-se que fora o mesmo religioso que fundara em 1585 a minha cidade, Guarapari/ES; para além desse fato, nosso grupo já havia no domingo da Epifania do Senhor visitado aquela Igreja, com objetivo de observar o espaço celebrativo.

Então partindo da observação que havíamos feito, fui projetando a minha observação. A beleza do espaço realmente me impressionou, por fora uma construção em estilo colonial e por dentro um espaço moderno (obra do grande arquiteto Cláudio Pastro, presente na celebração), despojado, de simplicidade incomum e de raro bom gosto, faz com que o fiel realmente se sinta bem. A iluminação é baixa na medida certa a Igreja não é escura, mas também não é muito iluminada.

Alguém me lembrava que o aconchego de um ambiente “pouco iluminado”, relembra o útero materno. De fato, a palavra útero me veio na cabeça novamente. No centro da Igreja, sob um arco que condizia a nave lateral da Igreja foi colocada a fonte batismal, que jorrava durante toda a celebração.




Por traz da fonte, um painel de azulejos chamou minha atenção (segundo informações foi obra de Cláudio Pastro), no painel está gravada uma versão em português de um trecho do seguinte texto:

GENS SACRANDA POLIS HIC SEMINE NASCITVR ALMO / QVAM FECVNDATIS SPIRITVS EDIT AQVIS / VIRGINEO FETV GENITRIX ECCLESIA NATOS / QVOS SPIRANTE DEO CONCIPIT AMNE PARIT / COELORVM REGNVM SPERATE HOC FONTE RENATI / NON RECIPIT FELIX VITA SEMEL GENITOS / FONS HIC EST VITAE QVI TOTVM DILVIT ORBEM / SVMENS DE CHRISTI VVLNERE PRINCIPIVM / MERGERE PECCATOR SACRO PVRGANTE FLVENTO / QVEM VETEREM ACCIPIET PROFERET VNDA NOVVM / INSONS ESSE VOLENS ISTO MVNDARE LAVACRO SEV PATRIO PREMERIS CRIMINE SEV PROPRIO / NVLLA RENASCENTVM EST DISTANTIA QVOS FACIT VNVM / VNVS FONS VNVS SPIRITVS VNA FIDES / NEC NVMERVS QVEMQVAM SCELERVM NEC FORMA SVORVM / TERREAT HOC NATVS FLVMINE SANCTVS ERIT.

Traduzido seria:

Aqui nasce um povo de nobre estirpe destinado ao Céu, que o Espírito gera nas águas fecundadas. A Mãe Igreja dá à luz na água, com um parto virginal os que concebeu por obra do Espírito divino. Esperai o reino dos céus, os renascidos nesta fonte: a vida feliz não acolhe os nascidos uma só vez. Aqui está a fonte da vida, que lava toda a terra, que tem o seu princípio nas chagas de Cristo. Submerge-te, pecador, nesta corrente sagrada e purificadora, cujas ondas, a quem recebem envelhecido, devolverão renovado. Se queres ser inocente, lava-te nestas águas, tanto se te oprime o pecado herdado como o próprio. Nada separa já os que renasceram, feitos um por uma só fonte baptismal, um só Espírito, uma só fé. A nenhum aterrorize o número ou a gravidade dos seus pecados: o que nasceu desta água viva será santo”.

Este texto originalmente encontra-se inscrito em uma arquitrave, sobre a piscina circular onde antigamente os cristãos eram baptizados por imersão que fica no centro do Batistério da Basílica de São João de Latrão, rodeada por oito formosas colunas de pórfiro com capitéis jónicos e coríntios.



Os versos são atribuídos ao Papa São Sisto III (432-440), onde se resume, de forma admirável, a doutrina cristã sobre o Batismo. Soam tão magnificamente que eu guardei a sincera vontade de que naquela celebração alguém fosse batizado, mas, não aconteceu.

Do lado oposto ao da fonte batismal, também ao centro da capela do lado direito de quem entra, sob outro arco e a frente de outro painel de azulejos (este gravado com o prólogo do Evangelho de São João), está a mesa da palavra.

Chamou-me a atenção e encantou-me que mesmo já tendo passado o tempo pascal, bem na frente do lugar destinado ao livro encontrava-se aceso o Círio Pascal (segundo informações permanece assim durante todos os dias), parece-me que o que isso quer expressar é que a palavra de Deus é luz para a vida da comunidade, decidi-me então por recortar no meu relatório a liturgia da palavra.



A Introdução ao Lecionário da Missa, no número 3, ao referir-se ao valor Litúrgico da Palavra de Deus, assim asseverou:

Nas diferentes celebrações e nas diversas assembleias das quais os fiéis participam de maneira admirável, exprimem-se os múltiplos tesouros da única Palavra de Deus, seja no transcorrer do ano litúrgico, em que se recorda o mistério de Cristo em seu desenvolvimento, seja na celebração dos sacramentos e sacramentais da Igreja, seja nas respostas de cada fiel à ação interna do Espírito Santo. Deste modo, a mesma celebração litúrgica, que se sustenta e se apoia principalmente na Palavra de Deus, converte-se num acontecimento novo e enriquece a palavra com uma nova interpretação e eficácia. Por isso, a Igreja continua fielmente na Liturgia o mesmo sistema que usou Cristo na leitura e interpretação das Sagradas Escrituras, visto que ele exorta a aprofundar o conjunto das Escrituras, visto que ele exorta a aprofundar o conjunto das Escrituras, partindo do “hoje” de seu acontecimento pessoal.

Partindo do ponto de vista teórico do documento supracitado, fui me integrando na observação, os Ritos iniciais cumpriram seu papel “conduzir as mesas”. As musicas eram muito bem executadas, por um coro que com perfeição unia o popular ao erudito (o que é o ideal como me disse em uma conversa o padre Baronto), em um repertorio estritamente litúrgico.

Já durante a procissão de entrada, ficou evidente para mim que naquela celebração do Mistério Pascal de Cristo, eu iria poder me alimentar bem da palavra e de seu corpo e sangue; a frente um ministro trazia uma cruz, símbolo mais forte do mistério da morte e ressurreição impossível naquele momento, logo atrás dele uma leitora conduzia elevado o livro dos evangelhos.

Assim que terminaram os Ritos iniciais, dois jovens, um rapaz e uma moça, partindo do presbitério se dirigiram a mesa da palavra, esta trata-se de fato de um ambão, lugar alto (conta inclusive com alguns degraus). A primeira leitura foi proferida pela moça. Em seguida veio o salmista que desceu do coro e em um movimento rápido e discreto chegou à mesa da palavra de onde cantou em uma melodia muito bela o salmo que era alternado pelo povo por um refrão como é costume no Brasil. A segunda leitura foi proferida pelo rapaz.


Ambos os leitores com uma voz suave e segura puderam ser tranquilamente escutados por toda a assembleia. Durante estes momentos era incrível o silencio quase que sepulcral que se fazia no interior da belíssima capela, ouvia apenas o som da água jorrando na fonte batismal, o barulho externo (infelizmente comum a cidade de São Paulo e as grandes cidades do Brasil) e os murmúrios de alguns turistas como eu que talvez estivessem preenchidos do mesmo encantamento.

Quando terminou a segunda leitura, respeitados alguns instantes de silencio o coro iniciou o aleluia da Aclamação. Segundo o numero 62 da Instrução Geral ao Missal Romano: “Tal aclamação constitui um rito ou ação por si mesma, através do qual a assembleia dos fieis acolhe o Senhor que lhe vai falar no Evangelho, saúda-o e professa sua fé pelo canto”. De fato, foi isso que aconteceu! Durante o cântico o presidente tomou o Evageliário e dirigiu-se a mesa da palavra, enquanto os olhares e as vozes da assembleia o acompanhavam. Em seguida, cantando proclamou o Evangelho.

Terminado o evangelho todos retornaram para seus lugares no presbitério. E sobre a mesa da Palavra, iluminado pelo Círio Pascal, permaneceram os Evangelhos. O padre, um homem de meia idade, de media estatura e de longa barba, trajava uma casula gótica de cor dourada com galão vermelho, sentou-se na cadeira da presidência e sentado como os anciãos nas sinagogas ou mesmo nossos pais em casa, iniciou a homilia.


A homilia pareceu-me preparada por uma exegese muito bem realizada, era de fato uma conversa em família, não pela intervenção das pessoas como muito se teima em querer fazer Brasil a fora, mas pela maneira como cada assunto foi abordado. Para o Padre a Festa que celebrávamos era a Festa da Eleição de Jesus, é um marco da solidariedade de Deus para com a humanidade. Partindo do texto da primeira leitura, do livro do Profeta Isaias, ele disse que: O Servo ali mencionado era todo o povo eleito e que é todo o povo eleito que dever ser luz para as nações.

Prosseguindo com a reflexão constatou que diferente dos outros Reis Ele (Jesus) não foi ungido apenas com o óleo, mas com o próprio Espírito Santo. Chamou atenção da assembleia para o fato de que nos quatro evangelhos aparece a noticia do Batismo de Jesus, os Evangelhos Sinóticos fazem toda uma narrativa, enquanto que o Evangelho de João apenas faça menção ao fato. Mas, é nas peculiaridades do Evangelho de Lucas que ele prossegue, segundo ele são três:

·         Jesus se apresentou para o Batismo.
·         É enquanto Jesus orava que o céu se abre, Deus fala e o Espírito Santo vem.
·         E o Espírito desceu sobre Jesus em forma de Pomba, o evangelista frisa a forma corporal.

E então levanta-se uma questão: Porque o Justo (Jesus) entrou na fila dos pecadores?

Os pecadores eram batizados por João para serem lavados, eram uma multidão e Jesus se apresenta do meio deles. O Filho de Deus quis fazer-se igual a nós. É essa solidariedade de Deus que nos permite a Salvação, segundo o padre. Com essa atitude Ele santificou as águas onde todos os pecadores foram mergulhados. Ele prosseguiu dizendo que: não é o batismo de João que confere o Espírito Santo a Jesus. Mas que é naquele episodio que depois de trinta anos no anonimato, Jesus assume publicamente a missão que o Pai lhe deu. Assim, o religioso afirmou que é na oração que o céu se abre, que a terra e o céu se comunicam e que é possível fazer a experiência de Deus. É na ação do Espírito Santo que acontece naquele ato a assim chamada “Investidura messiânica” de Jesus Cristo.


E porque o Espírito teria forma de pomba? Essa imagem figurativa aparece varias vezes. Na criação, o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Um antigo comentário rabínico afirmava que era em forma de pomba que ele pairava. No dilúvio, a pomba traz a Noé a noticia que as águas haviam baixado, que estava realizada aquela aliança. Jonas quer dizer pomba, significa que a comunidade é o lugar do Espírito. Assim, em Cristo se dá uma nova criação, uma nova oportunidade. É pelo mistério pascal de Cristo que o Espírito está presente na comunidade cristã e que em Cristo “servo” se realizou o amor do pai. Toda a liturgia da palavra desembocou na profissão de fé, rezada por toda a assembleia, e na oração universal, que foi cantada por uma mulher e respondida por todos com a expressão “ouvi-nos Senhor”.


Participar de uma celebração assim, tão significativa, diante de tudo que se tem experimentado no atual fest food religioso que nos oferecem as redes de televisão, me fazem perceber o que é fundamental para que esses ministros que lembram apresentadores de programa de auditório, eles próprios não descobriram a profundidade teológica dos nossos ritos e estão perdidos em suas tentativas de se realizarem quanto às celebrações que presidem, confundindo sacralidade com suntuosidade e mistagogia com sentimentalismos baratos. As comunidades precisam reconhecer nos ritos a sua fé. A comunidade do patteo do collegio é uma comunidade que vive em torno da liturgia e encontra nela todo o seu alimento, esse talvez seja o modelo ideal de comunidade católica. A organização eclesial em torno de tantos grupos, movimentos e pastorais (embora importante), pode ser a fonte da dispersão que faz com que as pessoas vivam uma experiência de fé cada vez mais individual e quando procuram realiza-la em comunidade acabam se frustrando (o que se celebra na Igreja não é a liturgia do seu grupo). É possível que todas as atividades (caridade, famílias, jovens) que a fé cristã exige brotem da celebração do mistério pascal, bastando apenas colocar, como foi feito na comunidade observada, a celebração como fonte da atuação, até mesmo que em detrimento das estruturas organizacionais.

Lucas Francisco Neto